Desenvolver (novos) líderes, um caminho… uma necessidade!

Desenvolver (novos) líderes, um caminho… uma necessidade!

Nos últimos 30 anos temos trabalhado e desenvolvido o tema da liderança como em nenhum outro tempo. Múltiplos teóricos, professores, comentadores, consultores, políticos, atletas, profetas da autoajuda, todos expressam as suas ideias e caminhos para promover, desenvolver, incentivar atitudes de liderança. Falar de liderança é trendy e fica bem em qualquer conversa de café com os amigos. Discursos parlamentares, comentários políticos, desportivos, culturais, bélicos, tantas são as áreas onde essa palavra é utilizada que o seu real significado se perde, na maior parte das vezes.

É difícil encontrarmos terreno comum e comumente aceite sobre o seu significado, no entanto, enquanto falamos dela, partimos do princípio simples que ela é algo de objetivo e claro, que todos a vemos da mesma forma e que ela se manifesta nas nossas ações de forma idêntica e com os mesmos significados profundos. Nada pode estar tão errado.

A riqueza da substância da preparação de líderes reside na essência para a qual os queremos preparar. Qual a raiz motora dessa preparação e qual a matriz de ações que terá que originar, para que possam ser consideradas como aceitáveis as suas ações.

Preparar novos líderes para o mundo, dependerá sempre da visão inicial. Que lideranças pretendemos incutir nas novas gerações e nas atuais? O que pretendemos alcançar? Por que meios pretendemos alcançar esses mesmos resultados?

A liderança é sempre a manifestação objetiva de uma visão que tem de estar clarificada na cabeça das pessoas, para que possa ser aprendida e que produza os frutos pretendidos. Liderar tem sempre que estar relacionado com o futuro, pois as ações de liderança no presente marcam, de forma significativa, o que outros irão fazer depois. Assim, liderança é mais do que a ação de uma pessoa. É uma visão coletiva que procura, num determinado momento, produzir um resultado no futuro. A liderança são as pessoas em ação e o fruto dessa ação será sempre o resultado da visão inicial que pretendemos criar, desenvolver, promover e/ou disseminar.

É por isso que temos de encarar a liderança em diferentes planos. O plano racional – obtenção de resultados -, o emocional – a forma comportamental como esses resultados se obtêm – e o plano ético – como marca civilizacional. É neste último plano, que a liderança se torna mais complexa, pois necessita que estejam evidenciados os seus pilares base, assegurados pelos valores humanistas e depois disseminados através de uma visão de futuro.

Hoje este tema é mais atual que nunca. Ao longo dos últimos dois anos o mundo em que vivemos sofreu alterações profundas e tão complexas que não conseguimos ainda, claramente, entender os seus efeitos e consequências para as futuras gerações. No segundo mês deste ano, uma ameaça ainda maior se abateu sobre todos os cenários, já por si, difíceis dos nossos tempos. Uma guerra complexa e trabalhada em múltiplas frentes, mas sobretudo na frente da ética humanista que nos caracteriza.

Vemos, nesta fase, a importância da liderança, da resiliência, da resistência a tudo o que nos pode tirar a esperança e a crença num mundo melhor, mais justo e onde as pessoas possam viver em paz. Um mundo em que as vidas têm, de facto, valor e que esse valor é um direito em si.

Não podemos ver a liderança nas organizações de outra forma. Temos de perceber o que está em jogo em cada organização, em cada modelo organizacional que se cria e se desenvolve. Não podemos ter a veleidade de não perceber que é na ética humanista que residem as bases dos nossos valores civilizacionais e que sem eles, nenhum modelo de desenvolvimento tem cabimento, nem nenhuma organização consegue criar inovação e desenvolvimento sustentável.

O desenvolvimento sustentável precisa de mentes criativas e sociais. De mentes que pensam com gentileza e candura e que vêm nas pessoas que os rodeiam, parceiros ao invés de inimigos ou adversários a abater ou ultrapassar. Essas mentes criativas não se desenvolvem em ambientes organizacionais poluídos pelo medo e pela opressão, nem tão pouco pelas atitudes individualistas, em que o culto do individuo o coloca numa posição de ente sagrado. Sabemos, no entanto, que nesses ambientes poluídos as pessoas são levadas a praticar ações com as quais não se identificam e que lhe geram ansiedade generalizada.

A liderança que queremos nas nossas organizações é a que assenta em comunidades interrelacionais que se complementam e que produzem riqueza distribuída, de forma equitativa. São comunidades que promovem o crescimento individual através do desenvolvimento das faculdades humanas, em que as pessoas participam por sua livre vontade e onde se manifestam de acordo com os valores civilizacionais em que acreditamos. Parece difícil? Sim, é mesmo muito difícil. Nunca é um fim, é sempre um caminho. Um caminho que temos de trilhar com a convicção de que nunca teremos a Liberdade como um dado adquirido. Temos de estar sempre a criar novos líderes que conheçam sempre o que está em jogo em cada uma das pequenas concessões que fizerem aos seus valores.

É possível? Não sei, mas sei que é necessário!

Artur Ferraz

Consultor Gestão Pessoas

Artigo originalmente publicado em https://www.cefamol.pt/index.php?id=85&idn=542

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